Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

Dez poemas

PRELÚDIO DE ALEGRIA

Foi à beira de um lago
que notei teu andar manso, avançando rente ao chão,
de quem, serena, se pousa levitando passo a passo,
como pó que se eleva sem da terra se afastar.
Nesse fresco fim de tarde, dela surgiam, em fila,
uns dez bustos juvenis meio-enterrados na lama,
num desses despropósitos em que a arte se instalou.
Perguntaste em que pensava.

Nesses poucos corpos vivos, quis ver símbolos, mistérios,
metáforas da nossa espécie, provocações, planos de acção.
Tu apenas observaste que talvez sentissem frio.

Da espontânea compaixão, veio a mim um arrepio,
e quis, querendo inteiro, que de mim te condoesses,
e me acolhesses todo no teu colo branco e quente.

17/9/2001


VÉSPERAS

Deste sítio, a vista é feia.
Os telhados sucedem-se desordenados;
suas linhas, divergentes, intersectam-se em ângulos abstrusos,
e sobre as telhas irredutíveis encavalitam-se
as monótonas varandas, muradas com marquises,
de dois caixotes bruscos, ponderosos, aborrecidos.

Vem então o sol da tarde.
Das águas e das empenas emergem manchas de luz
com seus sulcos e relevos, e tudo parece animar-se
na balança dos meus olhos até que as superfícies desiguais,
mais e menos chegadas ao centro, se equilibram,
e o quadro perfaz-se, recobrindo o mau desenho.

Assim também ao fim do dia,
quando irrompes na teia ressequida, desencontrada,
que povoa o meu olhar, dela refulge o leite e o mel
e ressurge a sombra refrescante do cedro
sobre o trilho, tão antigo, que plantaste à nossa beira;
e essa beleza, tenho a certeza, é de ti só que emana.

E porque sempre, dia-a-dia, a mim a dês, a ti eu queira
elevar ao fim da tarde — um mesmo, e só, Osanna.

2/11/2001


NATAL DE VERDADE

Todos os anos ouço dizer,
e é verdade, que vai nascer
uma criança:

uma criança de cuja boca
saia a verdade, mesmo que doa
quando penetra,

mais que os ouvidos, o coração — .
Do primeiro grito, de aflição,
ninguém se lembra;

se renasce a criança em nós
e, sem certezas, ficamos sós,
logo a calamos,

e dizemos, quando o rosto manso
da verdade fita o desmando
no dia-a-dia,

que a criança veio e morreu
e que em verdade não renasceu
entre pessoas,

que a vida é assim, e pronto,
e quem pergunta demais é tonto — .
E no entanto,

há sempre um menino que vê
de cima, e fulmina um porquê
bem colocado,

e diz que o mundo tem um avesso,
que na verdade sou eu que o teço
assim trocado,

e o seu rosto renasce sempre,
como verdade que se relembre
com pouco esforço;

e por este menino sabemos
que o Natal assim, tal como o temos
de um dia só,

de compras a eito, sem mais nada a
despir e a dar do que a roupa usada
(a salvação

do exército, no lugar de alguém),
terá luzes, folguedo; porém —
não é verdade.

22/12/2000


PUBLICIDADE

Quando eu tinha uns treze anos,
não podendo ser poeta, inventava slogans,
ansiando me valessem justo aplauso e capital.

Hoje que um slogan me inventa
a matar tempo à espingardada,
eu: “selvagem!”, “infiel...”, “ousando amar”
um Citroën, percebo que o verbo salva
só quando nos é inútil.

1/7/2003


RECORDAÇÃO DE SETÚBAL:

Não a caneca estampada
com seu templo esquivo, colado ao chão,
nem postal do altaneiro forte aonde ninguém vai.
Não o guia inexistente da sereníssima pintura,
ou poema de Bocage sem palavrões;
nem sequer a serra única, arcaica,
exibindo a chaga branca aos camionistas.

Lembro, sim, o onze de Pedroto no Jamor
e o alerta de um bispo contra a fome,
e as quintas da baixa de Palmela
ladrando em vão aos apetites da urbe,
e a defunta esplanada do Esperança,
as raízes aí lançadas pela manhã
na míngua de saldos ou de céu azul;
e a peregrinação às bancas do peixe,
e o porto abandonado de fábricas,
e os roazes ao longe, brincando estéreis
sob gaivotas expectantes,
e rumar cedo à Figueirinha
grossa de carros e de areias,
e ser intruso nas dunas de Tróia
que hordas a ferry vão sitiando,
por entre ruínas de moluscos,
salgas romanas,
cais de hovercraft e sempre erectos aparthotéis.

Em Setúbal, recordo enfim
o condutor, que ao peão
na zebra cede a passagem.

(Por dever, local costume,
cortesia, ou pundonor de dar ao fraco
fugaz direito à primazia?)

29/6/2003


AMOR LARANJA

Ao companheiro Vasco

Amo a Linha, mais que o Porto,
que revejo entre viagens:
servem só sopa de vagens
pelos legumes que sorvo!
Mas se venho de Cascais, a
par do Tejo, suas margens
lembram-me o Douro em Gaia...
— Palavra de mouro, não é chalaça,
porque a esquerda é uma desgraça!


Amo a classe; o povo é pires,
não gosta de pianistas
(mesmo aqueles das revistas),
da gente de fina estirpe
como o Jordão: põe-se a milhas
se, em Ravel, ele se avista
com a mão destra sem pilhas...
— Palavra de mouro, não é chalaça,
porque a esquerda é uma desgraça!


Amo os livros, quer os meus
quer os outros que já fiz.
(A julgar pelo nariz,
venho de crentes em Deus
sem Filho, nem prima alada:
escapei-me por um triz
de ler p'rá banda errada...)
— Palavra de mouro, não é chalaça,
porque a esquerda é uma desgraça!


Amo as gajas enfunadas,
caprichadas em tais seios
que, perdido lá no meio
em demanda alambazada,
ganhe corpo na ideia
de que lancho, janto e ceio
só da mama da direita...
— Palavra de mouro, não é chalaça,
porque a esquerda é uma desgraça!

14/12/2000


PANEGÍRICO

Já as nuvens se derramam pela serra,
seu cinzento restagnado a desabar.
O frio engelha o rosto. A nortada
é rio de lama que nos galga — o bruto! —
Rugindo; ou que encharca, sem aviso,
a toalha que estendemos junto à foz.
Grasnam corvos: bafientos, retouçando
nos despojos de um mártir. (Quantos milagres
Esquecidos! Se a prece não é ouvida
mesmo à nobre rosa se censura o espinho.)

Sem sol de Inverno, nem espada justiceira
que a capa bem divida, reconforta
A voz serena — sim, a tua —, firmemente
educando, apontando mais além,
Mediando, irmanando. E ainda
te cabe às vezes, piano ou mezzo-forte,
Pôr as tropas em sentido, ó tribuno!
Das palavras, poucas retenho, mas nunca
A comoção falou tão alto. Tu convences
porque és recto, e ages do coração.
Irrompes culto donde impera o verniz.
Sentes a fundo. Irás mesmo chorar?
Ouve: um tempo tão feio. E ninguém
mais para dar rosto à nossa bandeira.

Preside, pois, ao rascunho que te estendo
como fazes ao país por que lutaste.
Rasga-lhe o futuro. Diz-lhe quais os versos
que não deixam a esperança levantar.
Portugal faz-se de mouco; mas eu sei
que amanhã, se lerá de outra maneira.

29/10/2002


2003 IN MEMORIAM

Andávamos distraídos, e eles aí estão,
esses que julgávamos de vez banidos das nossas vidas de conforto,
esses que mandavam rufias irromper nas assembleias,
escudados, eles, na pose de ofendidos;
esses nulos de blusão negro, mocassin italiano e motoreta,
que à saída da aula, visado o colega, o empurravam, três contra um,
para onde pudessem usar os seus punhos de ferro dourado;
esses vaidosos de ser brutos,
esses raivosos de inseguros,
esses amnésicos arautos do passado,
eles aí estão, no Governo e em todo o lado,
ainda e sempre ressentidos, mentirosos e ignaros,
esses que se diziam melhores, só porque eram bem nascidos,
e agora incensam o desemprego
e denunciam o insuportável peso do Estado,
contratando a eito, para os seus cargos, os amigos,
enquanto vendem a outros, por tuta e meia, o que o Estado a custo
[acumulou,
e alugam o ónus que ontem venderam,
e subcontratam o encargo dispensado,
a fazer de conta de que as contas estão mais magras, quando, afinal,
o preço não baixou
e a cobrança ainda vai no adro.

Lembram-se dos obesos capitalistas de charuto e chapéu alto,
com seus nécios, bigodudos comparsas generais?
Andávamos distraídos, mas eles aí estão,
esses para quem a boa guerra é a que não se declara, e nunca termina,
a que compra minas e bombas de fragmentação,
a que testa na carne os melhores jogos de vídeo;
esses para quem o bom inimigo é o que jaz eliminado
(porque a morte por míssil nunca é assassina)
e o seu bom soldado, o que, sem uniforme, se rapta e engaiola, ou se
[tortura com música infame;
esses que abatem sempre, a ninguém matando nunca,
e que respondem aos protestos com balas e prisões;
esses que destroem, subjugam, e distribuem aos seus pares
os contratos a pagar com o dinheiro do saque;
esses para quem o petróleo vale bem uma chacina,
sendo mundo e Palestina um senão colateral;
eles aí estão, não gordos e anafados como outrora mas ágeis e enxutos,
fazendo o jogging matinal em terra alheia
nos seus Nikes tintos de sangue.

Eles estão aí, cheios de adrenalina
— e nós andávamos distraídos.

31/12/2003


PRENDA DE NATAL

Ó Lisboa, amante da Buraca,
de túneis tão ufana que te aprestas
a ter mais uma, e tão profunda fenda
que por ela penetrando, em maca
somente se saia, termina lá
a obra; mas vou querer uma prenda
que me arranque o riso mais desatado:
Faz com que um certo patrício meu
à própria incúria se renda,
posto a cavar no poço, e a pagar
de seu bolso o milhão que aí ardeu.
O homem é um parvo diplomado,
só pensa em emprenhar noutros ouvidos,
e, por isso, dá por vezes ideia
de que tem, ao lado de um bebé,
maior maturidade nos juízos.
Podemos estar todos fartos do jogo,
que clamará por novo pontapé
de saída contra quem protestar:
o estupor nada vê e nada entende.
Não sabe sequer quem é, e se é
ou deixa de ser, caso não se veja
ao espelho mágico que tudo vende
e desfoca, e no entretém o mostra
capaz e belo, quando é horroroso
e nos traz presos num pântano viscoso.

30/10/2004


EMISSORA NACIONAL

A Rádio foi violada.
E que fez seu director?
— Nada.

Foi-se maestro e criador;
finaram-se orquestras inteiras.
E que fez seu director?
— Nada.

Tiraram-lhe as taxas, o tecto,
gente séria, apetrechada,
e que fez seu director?
— Nada.

Sem estúdio, ou confrangedor
lugar sequer para se ouvir,
o que fez seu director?
— Nada.

Pode um velho balão inchado
ser trinta vezes furado
e às nuvens sempre subir?

Haja alguém que, violado,
ainda consiga sorrir!

10/11/2004