DOIS POEMAS PARA FIAMA
CANTO GLOSADO
Quando Março me dá a nova flor
que abre sem palavras a corola,
eu comparo-a com o amor que eclode
na pupila do olhar em luz e sombra.
Sombra súbita de olhos alados;
calados, fundos poços, onde se perdem
desejos; brilhos mudos, insondados,
de sorrisos e porquês não formulados,
que, agitando a alma, a engrandecem...
Vem, tenaz mirar, com negro esplendor
ofuscar-me agora, e traz a cura
para a pobreza nossa e o clamor
do sangue — odor de leveza e candura
quando Março me dá a nova flor.
Flor tão rara quando surge, porém
cíclica estrela do campo, querida
de nós todos, pertença de ninguém;
a morte, tem-na certa quando advém
mas deixa rasto só de fé na vida.
Dizia o cavaleiro à pastora:
—Anda à leira, olha ao longe, sossega;
pensa comigo o tempo enquanto rosa
brava, ditoso néctar de abelha
que abre sem palavras a corola.
Corola rosa e vermelha, forrada
a veludo, com pregas muitas e finas;
tesouro escondido, atracção velada,
lábios carnudos, a caverna inchada:
Luzente égua de suadas crinas,
resfolegante, que larga a galope
e se vai; ou rocha que à lava verga
e racha, e abrir-se mais não pode.
Ora a pedra, quando estala e rola e quebra,
eu comparo-a com o amor que eclode.
Eclode a seu tempo e logo esmorece
a paixão indómita, voraz, demente,
que amor se crê e o não reconhece
na brasa sem chama, no xaile que aquece
e nos afaga à noite, longamente.
Está ausente, e sua testa tomba
já do sono, mas sonhando acordada
aclara o escuro a pensativa pomba:
sobraçando os livros contemplou o Nada
na pupila do olhar em luz e sombra.
15/1/2000
CINTILAÇÃO
F. H. P. B.
Rua da Saudade,
Vivenda Azul.
— Vinde já...
O alumbramento
que se estampa no rosto.
O rosto lido nos olhos,
os olhos, nas sobrancelhas.
Lembro-as calmas redondas alçadas,
abrindo clareiras sedentas de luz.
O reflexo está mais opaco. Seu brilho já não ofusca.
Mas lembro-as ainda bem altas, envolvendo o universo
com seu traço negro e fino de mil longitudes pensadas
a pôr a testa em quietude,
impondo o neutro fascínio
de olhar a chama em sua judia (ou índia) moldura —
lábios de Gioconda, perfil de totem, frágil mágica escultura
digna de um Giacometti...
Vai-se apagando seu fogo, e cintilam só as cinzas
no vazio dos olhos
vivos. Distantes e já perdidos,
mais me acodem, intensas e mudas
sobre um suave sorriso de fada,
suas sobrancelhas acesas
içadas em auréola,
leves como as aves
que cantam,
espraiando-se em premonições de aurora:
...E terá de haver sol,
para as crianças amarem os patos brancos.
28/9/2001
Quando Março me dá a nova flor
que abre sem palavras a corola,
eu comparo-a com o amor que eclode
na pupila do olhar em luz e sombra.
Sombra súbita de olhos alados;
calados, fundos poços, onde se perdem
desejos; brilhos mudos, insondados,
de sorrisos e porquês não formulados,
que, agitando a alma, a engrandecem...
Vem, tenaz mirar, com negro esplendor
ofuscar-me agora, e traz a cura
para a pobreza nossa e o clamor
do sangue — odor de leveza e candura
quando Março me dá a nova flor.
Flor tão rara quando surge, porém
cíclica estrela do campo, querida
de nós todos, pertença de ninguém;
a morte, tem-na certa quando advém
mas deixa rasto só de fé na vida.
Dizia o cavaleiro à pastora:
—Anda à leira, olha ao longe, sossega;
pensa comigo o tempo enquanto rosa
brava, ditoso néctar de abelha
que abre sem palavras a corola.
Corola rosa e vermelha, forrada
a veludo, com pregas muitas e finas;
tesouro escondido, atracção velada,
lábios carnudos, a caverna inchada:
Luzente égua de suadas crinas,
resfolegante, que larga a galope
e se vai; ou rocha que à lava verga
e racha, e abrir-se mais não pode.
Ora a pedra, quando estala e rola e quebra,
eu comparo-a com o amor que eclode.
Eclode a seu tempo e logo esmorece
a paixão indómita, voraz, demente,
que amor se crê e o não reconhece
na brasa sem chama, no xaile que aquece
e nos afaga à noite, longamente.
Está ausente, e sua testa tomba
já do sono, mas sonhando acordada
aclara o escuro a pensativa pomba:
sobraçando os livros contemplou o Nada
na pupila do olhar em luz e sombra.
15/1/2000
CINTILAÇÃO
F. H. P. B.
Rua da Saudade,
Vivenda Azul.
— Vinde já...
O alumbramento
que se estampa no rosto.
O rosto lido nos olhos,
os olhos, nas sobrancelhas.
Lembro-as calmas redondas alçadas,
abrindo clareiras sedentas de luz.
O reflexo está mais opaco. Seu brilho já não ofusca.
Mas lembro-as ainda bem altas, envolvendo o universo
com seu traço negro e fino de mil longitudes pensadas
a pôr a testa em quietude,
impondo o neutro fascínio
de olhar a chama em sua judia (ou índia) moldura —
lábios de Gioconda, perfil de totem, frágil mágica escultura
digna de um Giacometti...
Vai-se apagando seu fogo, e cintilam só as cinzas
no vazio dos olhos
vivos. Distantes e já perdidos,
mais me acodem, intensas e mudas
sobre um suave sorriso de fada,
suas sobrancelhas acesas
içadas em auréola,
leves como as aves
que cantam,
espraiando-se em premonições de aurora:
...E terá de haver sol,
para as crianças amarem os patos brancos.
28/9/2001


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